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Encontro com as Musas #8

3 de set.
4 min de leitura

2 de setembro de 2026


Sair das caixas, desacelerar a urgência do mundo e acender a egrégora do afeto...


“Quando uma pessoa fala com verdade ela se cura, e aquela que ouve com presença se liberta.” — Camila Silvestrin


Na noite de 2 de setembro de 2026, a nossa roda virtual funcionou como um verdadeiro antídoto contra a aceleração do mundo. Num bate-papo intimista e acolhedor, Camila Silvestrin, Denise Ciciliano, Kristina Gonçalves e Letícia Bolzan se reuniram para investigar os incômodos do utilitarismo e resgatar o valor das coisas que não precisam de um fim lucrativo para existir.  


Os Fios Condutores da Conversa Viva


1. A armadilha do utilitarismo e o envenenamento das comparações


A noite começou a Denise Ciciliano relembrando uma frase citada no encontro passado: “É impossível melhorar e ser perfeita ao mesmo tempo”, da Julia Cameron. E refletiu sobre o valor de fazer coisas simples, como o crochê, apenas pelo prazer de fazer, sem a obrigação de transformar o hobby em produto.  


A Camila trouxe a experiência impactante de passar a semana sem acessar o Instagram. Ela compartilhou sobre a percepção da rede social como um "veneno" pela comparação estimulada. Ao se desligar do ruído digital, percebeu uma espécie de liberdade criativa: voltou a ter tempo e desejo de pintar com o filho, ler novos livros e olhar para as belezas miúdas da rua, como um tapete de flores rosas na calçada de sua cidade.  


2. As simulações da realidade, o medo do imprevisto e os interesses bilionários


A conversa ganhou uma camada profunda quando a Kris relembrou o filme Devoradores de Estrelas. Na ficção, um professor enviado ao espaço vive dentro de uma nave equipada com uma tecnologia imersiva capaz de simular praias, florestas e o correr dos rios.  


O relato resgatou uma curiosidade do mundo real: a existência do Sphere, em Las Vegas, uma esfera gigantesca e totalmente imersiva coberta por telas digitais. A partir desse gancho, a roda debateu a necessidade contemporânea de simular a realidade. Para além do desejo psicológico de dominar a natureza, a criação de locais como o Sphere escancara a lógica hipercapitalista: um projeto de mais de 2 bilhões de dólares feito para monetizar o deslumbre, transformar a contemplação em espetáculo pago e gerar ativos publicitários que vendem o tempo todo, por dentro e por fora.


Camila e Letícia Bolzan relacionaram esse fenômeno à experiência com cenários "instagramáveis" e parques comerciais. Em contraste com a infância vivida em sítios e fazendas reais, onde o contato com a natureza era barro, imprevisibilidade e vida acontecendo sem roteiro, a sociedade atual é estimulada a pagar por ambientes supercontrolados, onde até o afeto e o lazer viram mercadoria. 


3. A egrégora da conversa, a espiritualidade e o Diário Sensorial


A Kris compartilhou como o Clube de Conversa Criativa tem sido sua prioridade e trabalho vivo, atuando como um verdadeiro antídoto em oposição a sociedade do espetáculo e do consumo. Ela relatou sua retomada aos estudos de dramaturgia. E compartilhou a alegria de receber fotos de sua irmã, Karla, e sua sobrinha, Manu, pintando girassóis juntas em um momento de pura conexão artística.

  

A Camila e a Letícia destacaram a dimensão mística e de egrégora do grupo, onde a escuta atenta funciona como um espaço seguro de cura. Camila compartilhou sua leitura sobre a mediunidade inspirada e o poder da escrita como canal do divino. Para fechar a noite com chave de ouro, a Kris apresentou o conceito do Diário Sensorial (do livro Aprender de Coração, da Irmã Corita Kent), inspirando todas a criarem registros de cheiros, texturas, palavras engraçadas, sombras e pequenos tesouros colhidos pelo caminho.  



As travessias que ficaram


Alguns fios apareceram na fala de várias pessoas ao mesmo tempo:


O envenenamento da comparação: Alimentar-se do fluxo contínuo das redes sociais reduz a capacidade criativa e nos engaiola em caixas utilitaristas.  


Simulação e hipercapitalismo: Locais hipertecnológicos vendem a ilusão de controle e transformam o encanto em uma mercadoria cara, afastando-nos da vitalidade do imprevisível.


A arte como ato de esperança: O gesto de criar não precisa de metas ou validação para ser sagrado e curativo.  


A egrégora da presença: A escuta sincera entre pessoas dispostas a se desacelerar cria um ciclo profundo de libertação e apoio mútuo. 



Coletas da noite


As referências que alimentaram a nossa roda esta semana:


Filme, série e documentário e outros...


Sphere



Filme: Devoradores de Estrelas — Prime



Filme: Coyote Vs. Acme — cinema




Livros e Inspirações

  • O Caminho do Artista, de Julia Cameron  

  • Aprender de Coração (Learning Because of Heart / 10 Regras do Departamento de Arte), de Irmã Corita Kent  

  • Ensinamentos orais e obras de Ailton Krenak


Sarau


A Kris compartilhou durante o encontro as célebres 10 Regras do Departamento de Arte da Irmã Corita Kent:


  • Regra 1: Encontre um lugar em que você confie e experimente confiar nele durante um tempo.

  • Regra 2 (Deveres do estudante): Extraia tudo o que puder do seu professor e dos seus colegas.

  • Regra 3 (Deveres do professor): Extraia tudo o que puder dos seus alunos.

  • Regra 4: Considere tudo um experimento.

  • Regra 5: Seja autodisciplinado. Encontre uma pessoa sábia e opte por segui-la.

  • Regra 6: Nada é um erro. Não existe vitória nem fracasso: apenas o fazer.

  • Regra 7: A única regra é o trabalho pelo trabalho. Quem faz todo o trabalho o tempo todo é quem eventualmente compreende as coisas.

  • Regra 8: Não tente criar e analisar ao mesmo tempo. São processos diferentes.

  • Regra 9: Seja feliz sempre que puder. Divirta-se.

  • Regra 10: Estamos quebrando todas as regras, inclusive as nossas próprias regras.


O que é o Encontro com as Musas?


O Encontro com as Musas é um espaço aberto e gratuito da comunidade do Clube de Conversa Criativa. Uma vez por semana, nos juntamos sem pauta rígida ou obrigação de produção: cada pessoa traz apenas o que a atravessou nos últimos dias — o que viu, ouviu, leu ou sentiu.


O nome vem da mitologia grega, onde as Musas eram as concedentes da inspiração, combinada com o gesto do "encontro com o artista" de Julia Cameron: sair pelo mundo, colher o que alimenta e voltar para contar.


Nossos encontros acontecem semanalmente. O horário e os links de acesso são divulgados diretamente no grupo do Clube.


O que te atravessou essa semana? A porta está aberta.




Encontro com as Musas


Kristina Gonçalves - criadora do Clube de Conversa Criativa

 
 
 

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