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Encontro com as Musas #6

20 de ago.
6 min de leitura

19 de agosto de 2026


O sentido da vida é viver. O que é viver?


Há noites em que a conversa deixa de ser apenas uma troca e vira uma verdadeira "pirataria da realidade" contra o automatismo e a pressa do dia a dia. Começamos com um convite diferente: antes de abrir a roda, cada participante foi desafiado a sintetizar num pequeno post-it o que mais o inspirou, tocou ou atravessou ao longo da última semana. Fracassamos com sucesso na tentativa de condensar a ideia em poucas palavras... Já a conversa, essa foi maravilhosa!

 

Na sala, reuniram-se Ana Luiza, Arthur Torres Beloti, Denise Pinheiro, Kristina Gonçalves, Laís Lara Uema, Marília Pelluzzo, Soraia Dagazio, Wesley Nascimento e Júlia (que assina carinhosamente na tela como Coragem Praque). O resultado foi uma tapeçaria viva de relatos sobre o teatro, a desconstrução de preconceitos, o reparo de máquinas e o valor inestimável da escuta com presença.  


Os Fios Condutores da Conversa Viva


1. Olhar para as estrelas e habitar a presença

A roda começou embalada pelo poder das conversas sem pressa. O Wesley (biotecnólogo que estreou na roda) compartilhou o impacto de ter comemorado pequenas vitórias — como sua formatura — e de ter passado horas madrugada afora conversando profundamente com amigos, sem encostar no celular. Lembrou do prazer simples de se permitir um café da manhã sem pressa, quebrando a rigidez do cotidiano de laboratório. 

 

Puxando essa ideia de "sair do automático", a Marília trouxe uma citação emocionante do livro de Eliana Ferraz: “Sabe de que são feitas as estrelas, mamãe? Acho que as estrelas são feitas da gente olhar para elas”. A reflexão provocou a roda sobre o papel do nosso olhar: o mundo está cheio de estímulos nos consumindo, mas são os nossos olhos e a nossa atenção dedicada que dão verdadeiro significado às coisas.  


2. A coragem de sair da superficialidade e romper bolhas


A Laís relatou a experiência marcante de ter ido a um jantar imersivo e teatral cujo tema era "Brechas" e trazia a frase provocativa: “Um coração partido é um coração finalmente aberto”. Ela refletiu sobre a raridade e a beleza de conversar com desconhecidos sobre dores e sonhos profundos, em contraste com a superficialidade com que muitas vezes nos apresentamos para pessoas que conhecemos há 20 anos. 

 

Na mesma linha de expansão de horizontes, Laís e Wesley abordaram o impacto cultural e estético do álbum da Anitta inspirado nos Orixás e no Candomblé, destacando o valor de estudar e desconstruir preconceitos religiosos para acessar a riqueza simbólica e espiritual do Brasil. Laís compartilhou ainda sua travessia pelo espetáculo teatral Sidarta e o aprendizado com o personagem Govinda: a percepção de que quem busca uma "resposta ou religião perfeita" de forma excessivamente racional muitas vezes deixa de viver e experimentar a vida presente. 


3. Fazer arte com as mãos: consertos, ruídos e a função do invisível


A dimensão prática e material da criação também ganhou espaço. A Denise contou a satisfação de ter desconstruído e consertado a máquina de costura da mãe usando sua vivência em mecânica e chaves de fenda, afirmando que "desparafusar e desobstruir" as coisas do mundo traz uma nova percepção da realidade. Mencionou também sua sensibilidade auditiva durante crises de enxaqueca, onde capturou os ruídos do "silêncio" e reuniu teclas antigas de computador para formar a palavra Travessia.

 

O Arthur trouxe a história impactante de uma estrutura colossal de madeira rústica construída clandestinamente por um artista sueco numa floresta isolada. Ao ser processado pelo Estado, o artista transformou os próprios processos judiciais em "arte burocrática", mostrando que o ato criativo não precisa de uma utilidade prática para ser potente. Ele relatou ainda seu encontro com um "homem-banda" nas ruas de Vitória e o ensinamento sobre transformar a dificuldade técnica em paixão e entrega. 


3. Paixão e o movimento do corpo


A Kris compartilhou seu reencontro com o amor pelo teatro ao assistir à peça Os Sete Gatinhos no Teatro Oficina, além do impacto de assistir à série de conversas de Ailton Krenak na internet — lembrando como o vento, a água e o fogo são seres vivos que pedem nossa escuta. 


Já a Ana Luiza trouxe o encanto de ter assistido a um espetáculo de dança contemporânea (Sei Latino), que resgatou nela a vontade de sentir o potencial do próprio corpo em movimento, coroando a noite com a recitação do célebre Soneto XIII de Olavo Bilac ("Pois só quem ama pode ter ouvido / Capaz de ouvir e de entender estrelas"). 



As travessias que ficaram


Alguns fios apareceram na fala de várias pessoas ao mesmo tempo:


Escuta ativa como revolução: Num mundo que nos quer isolados na tela do celular, sentar para escutar a história do outro com presença é um ato político e regenerador.  


Desatar o "como" para dar espaço ao "o quê": A ação tem mágica e poder em si mesma; ficar preso na busca pela perfeição ou na dúvida de como fazer só adia o começo.  


A arte não precisa de utilidade comercial: Seja um conserto doméstico, um poema infantil ou uma torre de madeira no meio da floresta, criar é a nossa forma de dialogar com o invisível e ressignificar o cotidiano.  


União e pertencimento: O Encontro com as Musas atua como um espaço seguro de apoio mútuo onde pessoas de áreas tão diversas (da filosofia à biotecnologia) se conectam na mesma frequência. 


Coletas da noite


As referências que alimentaram a nossa roda esta semana:


Filme, série e documentário e outros...


Filme: Os Elementos estão falando — Conversa na Rede Ailton Krenak



Série: The Midnight Gospel — Netflix



Série: Irmão do Jorel — YouTube



Documentário: Lars Vilks



Álbum visual: Anitta - Equilibrivum II




Livros

  • Sede de me beber inteira, de Eliana Ferraz (trazido pela Marília)

  • Sidarta, de Hermann Hesse (mencionado pela Laís) 

  • Ou Isto ou Aquilo, de Cecília Meireles (lido pela Marília)

  • Soneto XIII ("Ouvir Estrelas"), de Olavo Bilac (recitado pela Ana Luiza)

  • O Grande Panda e o Pequeno Dragão, de James Norbury (indicado pela Laís)

  • Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa (citado pelo Wesley)



Ideias e referências


  • Peça Os Sete Gatinhos (Teatro Oficina) (indicada pela Kris)

  • Sidarta - solo encenado e dirigido por Angel Ferreira, livremente inspirado no clássico romance de Hermann Hesse - Teatro Estúdio SP  (indicada pela Laís)

  • Espetáculo de dança Sei Latino (trazido pela Ana Luiza)


Sarau


Trecho do livro Sede de me beber inteira (Liana Ferraz)

  

"— Você sabe de que são feitas as estrelas, mamãe?

— Filha, acho que as estrelas são feitas da gente olhar para elas."

  

  • Poema completo de Cecília Meireles — Ou isto ou aquilo  

      

    "Ou se tem chuva e não se tem sol,  

    ou se tem sol e não se tem chuva!  

    Ou se calça a luva e não se põe o anel,  

    ou se põe o anel e não se calça a luva!  

    Quem sobe nos ares não fica no chão,  

    quem fica no chão não sobe nos ares.  

    É uma grande pena que não se possa  

    estar ao mesmo tempo nos dois lugares!  

    Ou guardo o dinheiro e não compro o doce,  

    ou compro o doce e gasto o dinheiro.  

    Ou isto ou aquilo: ou isto ou aquilo...  

    e vivo escolhendo o dia inteiro!  

    Não sei se brinco, não sei se estudo,

    se saio correndo ou fico tranquilo.

    Mas não consegui entender ainda

    qual é melhor: se é isto ou aquilo."


  • Soneto XIII (Ouvir Estrelas), de Olavo Bilac (recitado pela Ana Luiza)

      

    "Ora (direis) ouvir estrelas! Certo

    Perdestes o senso! E eu vos direi, no entanto,

    Que, para ouvi-las, muita vez desperto

    E abro as janelas, pálido de espanto...

      

    E conversamos toda a noite, enquanto

    A via-láctea, como um pálio aberto,

    Cintila. E, ao vir do sol, saudoso e em pranto,

    Indo as procuro pelo céu deserto.

      

    Direis agora: 'Tresloucado amigo

    Que conversas com elas? Que sentido

    Tem o que dizem, quando estão contigo?'


    E eu vos direi: 'Amai para entendê-las!  

    Pois só quem ama pode ter ouvido

    Capaz de ouvir e de entender estrelas.'"


  

"O meu desejo hoje é que a gente esteja atento ao que acontece ao nosso redor. Muitas vezes, é o nosso olhar que dá sentido às coisas; é como se o olhar participasse da existência delas. Do contrário, o que é importante pode estar tão perto e passar despercebido.

O mundo está sempre cheio de novidades que disputam o nosso olhar com tudo, sendo consumido de forma automática e acelerada. Me pergunto se não sou eu o produto; muitas vezes, não me sinto escolhendo, mas sendo escolhida por coisas que eu não preciso.

O meu desejo profundo hoje é que a gente consiga olhar e reconhecer o que realmente importa. A estrela está lá, mas é quando olhamos para ela que ela ganha significado para nós."


Marília Pelluzzo


O que é o Encontro com as Musas?


O Encontro com as Musas é um espaço aberto e gratuito da comunidade do Clube de Conversa Criativa. Uma vez por semana, nos juntamos sem pauta rígida ou obrigação de produção: cada pessoa traz apenas o que a atravessou nos últimos dias — o que viu, ouviu, leu ou sentiu.


O nome vem da mitologia grega, onde as Musas eram as concedentes da inspiração, combinada com o gesto do "encontro com o artista" de Julia Cameron: sair pelo mundo, colher o que alimenta e voltar para contar.


Nossos encontros acontecem semanalmente. O horário e os links de acesso são divulgados diretamente no grupo do Clube.


O que te atravessou essa semana? A porta está aberta.




Encontro com as Musas


Kristina Gonçalves - criadora do Clube de Conversa Criativa

 
 
 

1 comentário


QUE POTENTE, SOCORRO, QUE LINDO!

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