Encontro com as Musas #6
19 de agosto de 2026
O sentido da vida é viver. O que é viver?
Há noites em que a conversa deixa de ser apenas uma troca e vira uma verdadeira "pirataria da realidade" contra o automatismo e a pressa do dia a dia. Começamos com um convite diferente: antes de abrir a roda, cada participante foi desafiado a sintetizar num pequeno post-it o que mais o inspirou, tocou ou atravessou ao longo da última semana. Fracassamos com sucesso na tentativa de condensar a ideia em poucas palavras... Já a conversa, essa foi maravilhosa!
Na sala, reuniram-se Ana Luiza, Arthur Torres Beloti, Denise Pinheiro, Kristina Gonçalves, Laís Lara Uema, Marília Pelluzzo, Soraia Dagazio, Wesley Nascimento e Júlia (que assina carinhosamente na tela como Coragem Praque). O resultado foi uma tapeçaria viva de relatos sobre o teatro, a desconstrução de preconceitos, o reparo de máquinas e o valor inestimável da escuta com presença.
Os Fios Condutores da Conversa Viva
1. Olhar para as estrelas e habitar a presença
A roda começou embalada pelo poder das conversas sem pressa. O Wesley (biotecnólogo que estreou na roda) compartilhou o impacto de ter comemorado pequenas vitórias — como sua formatura — e de ter passado horas madrugada afora conversando profundamente com amigos, sem encostar no celular. Lembrou do prazer simples de se permitir um café da manhã sem pressa, quebrando a rigidez do cotidiano de laboratório.
Puxando essa ideia de "sair do automático", a Marília trouxe uma citação emocionante do livro de Eliana Ferraz: “Sabe de que são feitas as estrelas, mamãe? Acho que as estrelas são feitas da gente olhar para elas”. A reflexão provocou a roda sobre o papel do nosso olhar: o mundo está cheio de estímulos nos consumindo, mas são os nossos olhos e a nossa atenção dedicada que dão verdadeiro significado às coisas.
2. A coragem de sair da superficialidade e romper bolhas
A Laís relatou a experiência marcante de ter ido a um jantar imersivo e teatral cujo tema era "Brechas" e trazia a frase provocativa: “Um coração partido é um coração finalmente aberto”. Ela refletiu sobre a raridade e a beleza de conversar com desconhecidos sobre dores e sonhos profundos, em contraste com a superficialidade com que muitas vezes nos apresentamos para pessoas que conhecemos há 20 anos.
Na mesma linha de expansão de horizontes, Laís e Wesley abordaram o impacto cultural e estético do álbum da Anitta inspirado nos Orixás e no Candomblé, destacando o valor de estudar e desconstruir preconceitos religiosos para acessar a riqueza simbólica e espiritual do Brasil. Laís compartilhou ainda sua travessia pelo espetáculo teatral Sidarta e o aprendizado com o personagem Govinda: a percepção de que quem busca uma "resposta ou religião perfeita" de forma excessivamente racional muitas vezes deixa de viver e experimentar a vida presente.
3. Fazer arte com as mãos: consertos, ruídos e a função do invisível
A dimensão prática e material da criação também ganhou espaço. A Denise contou a satisfação de ter desconstruído e consertado a máquina de costura da mãe usando sua vivência em mecânica e chaves de fenda, afirmando que "desparafusar e desobstruir" as coisas do mundo traz uma nova percepção da realidade. Mencionou também sua sensibilidade auditiva durante crises de enxaqueca, onde capturou os ruídos do "silêncio" e reuniu teclas antigas de computador para formar a palavra Travessia.
O Arthur trouxe a história impactante de uma estrutura colossal de madeira rústica construída clandestinamente por um artista sueco numa floresta isolada. Ao ser processado pelo Estado, o artista transformou os próprios processos judiciais em "arte burocrática", mostrando que o ato criativo não precisa de uma utilidade prática para ser potente. Ele relatou ainda seu encontro com um "homem-banda" nas ruas de Vitória e o ensinamento sobre transformar a dificuldade técnica em paixão e entrega.
3. Paixão e o movimento do corpo
A Kris compartilhou seu reencontro com o amor pelo teatro ao assistir à peça Os Sete Gatinhos no Teatro Oficina, além do impacto de assistir à série de conversas de Ailton Krenak na internet — lembrando como o vento, a água e o fogo são seres vivos que pedem nossa escuta.
Já a Ana Luiza trouxe o encanto de ter assistido a um espetáculo de dança contemporânea (Sei Latino), que resgatou nela a vontade de sentir o potencial do próprio corpo em movimento, coroando a noite com a recitação do célebre Soneto XIII de Olavo Bilac ("Pois só quem ama pode ter ouvido / Capaz de ouvir e de entender estrelas").
As travessias que ficaram
Alguns fios apareceram na fala de várias pessoas ao mesmo tempo:
Escuta ativa como revolução: Num mundo que nos quer isolados na tela do celular, sentar para escutar a história do outro com presença é um ato político e regenerador.
Desatar o "como" para dar espaço ao "o quê": A ação tem mágica e poder em si mesma; ficar preso na busca pela perfeição ou na dúvida de como fazer só adia o começo.
A arte não precisa de utilidade comercial: Seja um conserto doméstico, um poema infantil ou uma torre de madeira no meio da floresta, criar é a nossa forma de dialogar com o invisível e ressignificar o cotidiano.
União e pertencimento: O Encontro com as Musas atua como um espaço seguro de apoio mútuo onde pessoas de áreas tão diversas (da filosofia à biotecnologia) se conectam na mesma frequência.
Coletas da noite
As referências que alimentaram a nossa roda esta semana:
Filme, série e documentário e outros...
Filme: Os Elementos estão falando — Conversa na Rede Ailton Krenak
Série: The Midnight Gospel — Netflix
Série: Irmão do Jorel — YouTube
Documentário: Lars Vilks
Álbum visual: Anitta - Equilibrivum II
Livros
Sede de me beber inteira, de Eliana Ferraz (trazido pela Marília)
Sidarta, de Hermann Hesse (mencionado pela Laís)
Ou Isto ou Aquilo, de Cecília Meireles (lido pela Marília)
Soneto XIII ("Ouvir Estrelas"), de Olavo Bilac (recitado pela Ana Luiza)
O Grande Panda e o Pequeno Dragão, de James Norbury (indicado pela Laís)
Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa (citado pelo Wesley)
Ideias e referências
Peça Os Sete Gatinhos (Teatro Oficina) (indicada pela Kris)
Sidarta - solo encenado e dirigido por Angel Ferreira, livremente inspirado no clássico romance de Hermann Hesse - Teatro Estúdio SP (indicada pela Laís)
Espetáculo de dança Sei Latino (trazido pela Ana Luiza)
Sarau
Trecho do livro Sede de me beber inteira (Liana Ferraz)
"— Você sabe de que são feitas as estrelas, mamãe?
— Filha, acho que as estrelas são feitas da gente olhar para elas."
Poema completo de Cecília Meireles — Ou isto ou aquilo
"Ou se tem chuva e não se tem sol,
ou se tem sol e não se tem chuva!
Ou se calça a luva e não se põe o anel,
ou se põe o anel e não se calça a luva!
Quem sobe nos ares não fica no chão,
quem fica no chão não sobe nos ares.
É uma grande pena que não se possa
estar ao mesmo tempo nos dois lugares!
Ou guardo o dinheiro e não compro o doce,
ou compro o doce e gasto o dinheiro.
Ou isto ou aquilo: ou isto ou aquilo...
e vivo escolhendo o dia inteiro!
Não sei se brinco, não sei se estudo,
se saio correndo ou fico tranquilo.
Mas não consegui entender ainda
qual é melhor: se é isto ou aquilo."
Soneto XIII (Ouvir Estrelas), de Olavo Bilac (recitado pela Ana Luiza)
"Ora (direis) ouvir estrelas! Certo
Perdestes o senso! E eu vos direi, no entanto,
Que, para ouvi-las, muita vez desperto
E abro as janelas, pálido de espanto...
E conversamos toda a noite, enquanto
A via-láctea, como um pálio aberto,
Cintila. E, ao vir do sol, saudoso e em pranto,
Indo as procuro pelo céu deserto.
Direis agora: 'Tresloucado amigo
Que conversas com elas? Que sentido
Tem o que dizem, quando estão contigo?'
E eu vos direi: 'Amai para entendê-las!
Pois só quem ama pode ter ouvido
Capaz de ouvir e de entender estrelas.'"
"O meu desejo hoje é que a gente esteja atento ao que acontece ao nosso redor. Muitas vezes, é o nosso olhar que dá sentido às coisas; é como se o olhar participasse da existência delas. Do contrário, o que é importante pode estar tão perto e passar despercebido.
O mundo está sempre cheio de novidades que disputam o nosso olhar com tudo, sendo consumido de forma automática e acelerada. Me pergunto se não sou eu o produto; muitas vezes, não me sinto escolhendo, mas sendo escolhida por coisas que eu não preciso.
O meu desejo profundo hoje é que a gente consiga olhar e reconhecer o que realmente importa. A estrela está lá, mas é quando olhamos para ela que ela ganha significado para nós."
— Marília Pelluzzo
O que é o Encontro com as Musas?
O Encontro com as Musas é um espaço aberto e gratuito da comunidade do Clube de Conversa Criativa. Uma vez por semana, nos juntamos sem pauta rígida ou obrigação de produção: cada pessoa traz apenas o que a atravessou nos últimos dias — o que viu, ouviu, leu ou sentiu.
O nome vem da mitologia grega, onde as Musas eram as concedentes da inspiração, combinada com o gesto do "encontro com o artista" de Julia Cameron: sair pelo mundo, colher o que alimenta e voltar para contar.
Nossos encontros acontecem semanalmente. O horário e os links de acesso são divulgados diretamente no grupo do Clube.
O que te atravessou essa semana? A porta está aberta.
Encontro com as Musas
Kristina Gonçalves - criadora do Clube de Conversa Criativa


QUE POTENTE, SOCORRO, QUE LINDO!