Encontro com as Musas #5
12 de agosto de 2026
Só sei que no caminho eu vou...
Há semanas em que a vida nos cobra ritmo, e há semanas em que ela nos pede pausa e colo. No dia 12 de agosto, a nossa roda se reuniu trazendo o peso dos dias difíceis, mas também a busca por pequenos rituais para reerguer a energia: uma música da Gal Costa tocada no quarto, um filme assistido sem pressa ou a dança despretensiosa antes de abrir a tela do computador.
A roda deste quinto encontro reuniu Arthur Torres Beloti, Camila Silvestrin, Denise Pinheiro, Kristina Gonçalves e Marília Pelluzzo. Entre relatos da maternidade sem filtro, cadernos de infância e o medo da escuridão, descobrimos que ser visto e escutado de verdade é, por si só, um ato revolucionário.
Os Fios Condutores da Conversa Viva
1. Escuta empática, medos e a infância como espelho
A conversa começou com a vulnerabilidade crua da maternidade e das relações mais íntimas. A Camila compartilhou um diálogo noturno com o filho, Miguel (de 6 anos), sobre o medo da solidão — em que ele, com uma sabedoria desconcertante, a acolheu lembrando que nunca estamos sós no mundo. A fala atravessou a roda, gerando uma reflexão profunda sobre o que entregamos para nós mesmos e para os nossos quando tiramos a máscara da "performance" do dia a dia.
Complementando, a Marília lembrou-se do filho João quando criança, que libertou seus próprios sentimentos ao ouvir a frase "não desejo mal a quase ninguém", percebendo que sentir raiva momentânea não o tornava um monstro. Lembrou também do ensinamento do preparador Nuno Cobra sobre a energia da nossa voz: a mesma intensidade que usávamos para broncas deveria ser empregada para valorizar o afeto e os feitos dos filhos.
2. O processo criativo: do medo do erro ao traço no papel
Como desarmar a voz interna que diz "não sei fazer" ou "não vai sair como pensei"? A Denise trouxe a reflexão de como muitas vezes desistimos de desenhar ou criar só porque a imagem na mente parece inalcançável. Ela provocou: e se a experiência de fazer for melhor do que a expectativa idealizada?
Isso abriu espaço para o Arthur resgatar um caderno antigo e compartilhar seu processo de infância desenhando carros: começou copiando contornos para entender proporções, até criar um método próprio que misturava visão técnica (antecipando sua futura formação em engenharia) e imaginação livre. A Denise também compartilhou seus cadernos de diários corporais, onde transformava em traços e mandalas as dores físicas e emocionais da época em que lidava intensamente com a fibromialgia.
A escrita rápida e contínua das Páginas Matinais voltou à tona: o Arthur trouxe o bordão de um corredor de rua — "só faltam 500 metros, e 500 metros eu sei fazer" — mostrando como enganar o cérebro para continuar criando, frase por frase, linha por linha.
3. Raízes, sombras e o direito de "brisar"
O Arthur compartilhou uma metáfora potente ouvida na semana: a de que crescemos como sementes — tanto para baixo (enfrentando a umidade, o escuro e a sujeira da terra) quanto para cima (em direção à luz e aos frutos). A Kris amarrou a imagem ao fato de estarmos em dia de eclipse, lembrando a importância de olhar para o que deixamos "debaixo do tapete" e mencionando as redes invisíveis de fungos e raízes (o povo em pé) que conectam uma floresta inteira por baixo da terra.
A conversa desembocou no livro Matéria Escura e no conceito de multiversos: a ideia confortadora de que todas as nossas escolhas não feitas continuam existindo e acontecendo em alguma dimensão, tirando o peso do arrependimento do presente. Permitiu-nos, por fim, resgatar o direito de apenas "brisar" — deixar o pensamento fluir livremente, brincar com a mão não dominante, desenhar sem nexo e resgatar a autenticidade da nossa criança interior.
As travessias que ficaram
Alguns fios apareceram na fala de várias pessoas ao mesmo tempo:
A dor, o afeto e a voz: A energia que gastamos corrigindo ou nos estressando precisa ser canalizada com a mesma força para elogiar, acolher e estar presente.
A prática educa a imaginação: A mente idealiza coisas inalcançáveis porque está distante da matéria. Quando pegamos no lápis ou na caneta, o erro vira caminho e o processo ganha corpo.
O apoio de ser visto e ouvido de verdade: Num mundo corrido, ter um espaço onde você pode falar sem julgamentos e ser escutado com atenção plena é o maior combustível para a saúde mental e criativa.
Crescer exige raiz no escuro: Não há frutos na luz sem a coragem de cavar e sustentar o crescimento no escuro da terra (e das nossas próprias sombras).
Coletas da noite
As referências que alimentaram a nossa roda esta semana:
Filme, série e documentário e outros...
Filme: Última Casa — Netflix
Série: Dirk Gently — Netflix
Série: The Bear — Disney Plus
Documentário: Fantastic Fungui
Documentário: Olhar de Nise
Documentário: Lucky People Center International (1998)
Música
Música: Força Estranha — Gal Costa
Livros
A Semente da Vitória, de Nuno Cobra (trazido pela Marília)
A Virtude da Raiva, de Arun Gandhi (trazido pela Denise)
Matéria Escura, de Blake Crouch (trazido pela Kris)
A Biblioteca da Meia-Noite, de Matt Haig (revisitado pela Marília)
Nomes, de Sergio Vega (trazido pela Marília)
Ideias e referências
O exercício de escrever e desenhar com a mão não dominante como forma de destravar a criança interior (trazido pela Denise).
A técnica de desenho com pontos de fuga e proporção nos cadernos de infância do Arthur.
Poema
"Descobrindo novos mundos,
eu vou escondida sem que ninguém saiba.
Caminhos da floresta,
junto com as borboletas,
por baixo das minhocas...
Ninguém sabe de mim, ninguém sabe quem eu sou.
Só sei que no caminho eu vou:
Vou sem medo, vou sem apego."
— Denise Pinheiro
O que é o Encontro com as Musas?
O Encontro com as Musas é um espaço aberto e gratuito da comunidade do Clube de Conversa Criativa. Uma vez por semana, nos juntamos sem pauta rígida ou obrigação de produção: cada pessoa traz apenas o que a atravessou nos últimos dias — o que viu, ouviu, leu ou sentiu.
O nome vem da mitologia grega, onde as Musas eram as concedentes da inspiração, combinada com o gesto do "encontro com o artista" de Julia Cameron: sair pelo mundo, colher o que alimenta e voltar para contar.
Nossos encontros acontecem semanalmente. O horário e os links de acesso são divulgados diretamente no grupo do Clube.
O que te atravessou essa semana? A porta está aberta.
Encontro com as Musas
Kristina Gonçalves - criadora do Clube de Conversa Criativa


Uau, que potente, consegui "ver" todos em cada palavra, e lembrar da sensação indescritível que é participar do Encontro com a Musa, gratidão, li 2x já.