Encontro com as Musas #4
5 de agosto de 2026
O sino da igrejinha faz belém, blem, blom..
Há encontros que começam antes mesmo de a roda abrir. Naquele 05 de agosto, ouvi os sinos de uma igreja tocar às 18h durante uma caminhada despretensiosa, entrei, rezei por uma amiga e postei uma foto ao som de "Anjos", do O Rappa. Pouco depois, já na tela do computador, enquanto a Marília ajustava o microfone, me vi cantando a mesma música para ela. Era o prelúdio de uma noite costurada por sincronicidades, pequenas delicadezas e a constatação de que um mês de conversa semanal só fez a nossa roda se aprofundar e transbordar.
Achei que seríamos só nós duas, mas a sala transbordou: vieram a Marília Pelluzzo, o Rafael Gonçalves, a Ana Luiza, o Arthur Torres Beloti e a Camila Silvestrin. Quatro encontros completos. Um mês de escuta.
Os Fios Condutores da Conversa Viva
1. O extraordinário mora nos segundos
A conversa voltou várias vezes à ideia de que não precisamos de grandes eventos para sermos tocados — precisamos apenas de atenção e presença.
O Arthur contou de uma pedalada em Vitória onde decidiu não hesitar diante de nenhuma imagem e acabou descobrindo duas casas na sua própria rua, onde mora desde sempre. A Marília relatou um passeio de domingo em que pegou a balsa para Vila Velha com o marido para encontrar o sobrinho — um gesto simples que a fez se sentir "turistando na Disney" na própria cidade.
A Camila trouxe a cena do seu filho, Miguel, insistindo num "boa tarde" a uma senhora idosa na calçada até transformar a expressão dela, lembrando que o que mais nos atravessa muitas vezes dura segundos. E a Ana Luiza complementou trazendo o vídeo de uma artista que coleta pequenos achados da natureza — galhos, frutos secos — para transformar em cerâmica, exercitando esse mesmo olhar atento para o cotidiano.
2. Desacelerar o censor e abrir espaço
Como silenciar a voz interna que julga antes mesmo de tentarmos? O Rafael, direto do trânsito e da chuva, compartilhou a vitória de ter escrito suas páginas matinais pela primeira vez sem deixar o censor entrar. O Arthur ressoou a experiência, contando que o segredo foi passar a escrever mais rápido — não para acabar logo, mas para não dar tempo de a mente pensar ou travar.
A Marília trouxe o frescor do seu primeiro contato com Manoel de Barros (O Livro Sobre Nada): a imagem das máquinas abandonadas que, cheias de areia e musgo, ainda podem "lascar flores". Ela também leu um trecho do livro Valor Presente, de Pedro Salomão, questionando em que momento a exaustão e a ocupação constante passaram a ser ostentadas como motivo de orgulho.
3. Confiança não se decreta, se pratica
A vulnerabilidade também se fez presente. A Camila falou do impacto de ouvir de uma amiga médium, a quem admirava, que ela também sente medo e não confia em si mesma. O Arthur ressoou a música "Viajera", da Karol G ("meu medo não é morrer, é não ter vivido"), refletindo sobre o esforço de confiar mais no próprio caminho e tirar projetos do papel.
Fios Condutores da Conversa Viva
Alguns fios apareceram na fala de várias pessoas ao mesmo tempo:
As pequenas coisas são as maiores. Um "boa tarde" de uma criança, um trecho de poema sobre uma máquina enferrujada, uma casa nunca antes vista na própria rua — a conversa voltou várias vezes à ideia de que não é preciso de grande evento para ser tocado, só de atenção.
A caixa de ferramentas da mão esquerda. Trouxe a imagem do escritor Rubem Alves: todo mundo carrega duas caixas de ferramentas, a da mão direita (o utilitário, o que resolve) e a da mão esquerda (a arte, a brincadeira, o que parece inútil mas alimenta). O Encontro com as Musas é sobre abrir a caixa da mão esquerda com mais frequência.
Confiança se pratica, não se decreta. Ficou o convite de um exercício simples: escrever "confiança" no centro de uma folha e ir puxando setas com o que vem à mente.
Rede social é uma briga pela atenção, e o limite é nosso. A conversa girou sobre a imaturidade no uso das redes e o quanto isso nos dispersa. Ver a vida do outro e cair na comparação é um veneno contra a criatividade. Percebemos a apreciação como antídoto: celebrar o outro em vez de se medir contra ele.
Desprender-se da pressa é um ato de coragem. Refletimos sobre a ideia socialmente estabelecida de que exaustão e correria viraram, sem percebermos, motivo de orgulho. A desaceleração pede uma permissão que ninguém nos dá além de nós mesmos.
Coletas da noite
As referências que alimentaram a nossa roda esta semana:
Filme, série e documentário e outros...
Filme: Hamnet— Prime
Música
Música: Anjos — O Rappa
Música: Viajando Por El Mundo — Karol G. e Manu Chao
Livros
O Livro Sobre Nada, de Manoel de Barros
Valor Presente, de Pedro Salomão
Eu tenho Sérios Poemas Mentais, Pedro Salomão
A Coragem de Ser Imperfeito, de Brené Brown
Ideias e referências
A metáfora das duas caixas de ferramentas de Rubem Alves
O trabalho do palhaço Pedro Salomão (Palhaço Baguete) em hospitais oncológicos (trazido pela Kris) — https://www.instagram.com/salomaopedro/
Vídeo da artista que coleta achados da natureza para fazer cerâmica (trazido pela Ana Luiza) — Instagram
Poema (lido pela Camila no encerramento)
"Não sei em qual esquina mudei.
Só sei que continuei andando pelas ruas,
mas já não sou o mesmo.
Algo em mim naufragou,
algo em mim nasceu,
algo em mim parou,
algo em mim aconteceu.
O passado já não me reconhece,
o futuro ainda não sabe da minha existência,
só posso fazer parte do agora
porque o agora sou eu."
— João de Barros
O que é o Encontro com as Musas?
O Encontro com as Musas é um espaço aberto e gratuito da comunidade do Clube de Conversa Criativa. Uma vez por semana, nos juntamos sem pauta rígida ou obrigação de produção: cada pessoa traz apenas o que a atravessou nos últimos dias — o que viu, ouviu, leu ou sentiu.
O nome vem da mitologia grega, onde as Musas eram as concedentes da inspiração, combinada com o gesto do "encontro com o artista" de Julia Cameron: sair pelo mundo, colher o que alimenta e voltar para contar.
Nossos encontros acontecem semanalmente. O horário e os links de acesso são divulgados diretamente no grupo do Clube.
O que te atravessou essa semana? A porta está aberta.
Encontro com as Musas
Kristina Gonçalves - criadora do Clube de Conversa Criativa


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