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Encontro com as Musas #3

1 de ago.
9 min de leitura

29 de julho de 2026


O que te atravessou nessa semana?


O Encontro com as Musas é um espaço aberto e gratuito da comunidade do Clube de Conversa Criativa, que se junta uma vez por semana. Cada pessoa traz o que a atravessou nos últimos dias — o que viu, ouviu, leu, sentiu. Sem tema imposto, sem precisar ter produzido nada. Só o que ficou.


Terceiro encontro, e a roda já tem repertório.


No dia 29 de julho, a roda teve Camila Silvestrin, Laís Lara Uema, Rafaella Vendrame, Denise Pinheiro, Arthur Torres Beloti, Marília Pelluzzo, Emily Sasse Jordan, Ana Luiza, Raquel Parrine e Rafael Gonçalves — mais eu, Kristina Gonçalves.


A Primeira Roda


A Paula Ferreira, de Niterói, não esteve na chamada, mas mandou seu relato para o grupo. Segue no projeto de "uma leitura só por vez": Do Que Eu Falo Quando Falo de Corrida, de Haruki Murakami, e O Adversário, de Emmanuel Carrère. Maratonou a minissérie Alias Grace, baseada em Margaret Atwood. E ficou com uma ideia simples: ler um romance de cada vez tem ajudado a fechar os laços em aberto.


A Laís Uema abriu a noite com um livro, Vamos Comprar um Poeta, de Afonso Cruz — a história de um mundo hiper-utilitarista, onde tudo é patrocinado e mensurado até o beijo, e uma família resolve comprar um poeta só para ver pra que ele serve. No fim, a utilidade da arte aparece de um jeito que ninguém esperava. Um trecho do livro ficou martelando: "Os animais nascem com a verdade como uma sólida realidade... nós nascemos com menos verdade, com menos realidade, mas com as armas imponderáveis da ficção. Criamos." Ela também trouxe um vídeo de astrologia sobre a semana de lua cheia e Júpiter — expansão, clareza, uma boa semana para se arriscar e explorar a criatividade — que terminava, coincidentemente, citando o mesmo livro. E, no aleatório do Spotify, topou com "Algo Contigo", da Rita Payés.


Peguei o gancho da fala da Laís: aquele trecho sobre ficção não saiu da minha cabeça. Fiquei pensando que a nossa criatividade é o nosso superpoder — e que a ficção, que parece tão distante da realidade, no fundo é a própria realidade quando se presta atenção. Tive um clique dessa ideia essa semana, num banho no meio do dia: um desejo genuíno de que todo mundo pudesse se dar essa liberdade simples quando a cabeça está pegando fogo.


A Camila Silvestrin contou de um domingo com o filho, Miguel, de 6 anos, num aniversário da cidade — ela largando a lista de tarefas de casa pra dar uma volta com ele. No meio da festa, dançou sozinha perto de uma mesa, ele veio dançar junto, riram muito — e quando voltou a brincar sozinho com seus bonequinhos, ele olhou pra ela e disse: "Mamãe, eu amo te ver feliz." Ficou pensando em como o Miguel cria o tempo inteiro, sem plano e sem plateia — e em como talvez criar seja também isso: se permitir fazer sem pensar.


A Rafaella Vendrame, professora de artes, veio pelo convite da Laís e contou de suas férias — um respiro depois de uma rotina que engole o tempo de criar. Foi à exposição "Sou o Outro do Outro" na Casa Bradesco com os sobrinhos, e no seu próprio ateliê, numa oficina de pintura com aquarela e água, viu uma criança pintar sem medo de "estragar" o desenho — desmanchando a própria pintura na água com uma coragem que a fez repensar o quanto os adultos se prendem ao resultado.


A Denise Pinheiro, estudante de filosofia e artista de várias frentes — fotografia, dança, escrita —, trouxe uma partilha funda sobre a vida em Montes Claros (MG): foi demitida do telemarketing, recomeçou como auxiliar de mecânico, e transformou o próprio corpo aprendendo a lidar com ferramentas, graxa e o machismo do ambiente numa espécie de dança e estudo de campo ao mesmo tempo. Falou de escrever num caderno só a lápis — "só rascunho permitido" — e indicou uma música da Marina Sena. E quando a Marília mencionou o filme O Convite, a Denise lembrou de um poema de mesmo nome — e leu-o na íntegra para fechar o encontro: O Convite, de Oriah Mountain Dreamer, que conheceu numa formação de comunicação não-violenta.


O Arthur Beloti, veio impactado pela fala da Denise — tem curiosidade antiga por mecânica e já cogitou virar de carreira. Também indicou o livro A Coragem de Ser Imperfeito, de Brené Brown, que o marcou quando ainda estagiário — e um vídeo de um grupo cantando a capella, batendo palma, que achou simplesmente bonito. E ainda ficou de fora da roda uma última indicação: um criador de conteúdo que faz receitas inusitadas com bom humor — dessa vez, massa de macarrão com cerveja, finalizada num molho carbonara.


A Marília Pelluzzo assistiu O Convite (o filme) e contou que, ouvindo a Camila falar do filho, lembrou de uma consulta em família com a psiquiatra, num momento difícil de depressão, em que a filha disse que queria vê-la feliz. Trouxe também um trecho do discurso que a filha leu na formatura, sobre aprender a ser mãe junto com a filha — e a ideia de que os pais também aprendem a amar sendo amados de volta.


A Emily Sasse, que veio pela Camila, contou que fez cinco anos da morte da mãe e que isso a levou a gravar um vídeo para o canal que está começando no YouTube, sobre amor incondicional — a ideia de que o amor não diminui com a morte ou com o fim de uma relação, só muda de forma.


A Ana Luiza, convidada pelo Arthur, trouxe a série Off Campus (Amazon Prime), sobre uma jovem compositora bloqueada por trauma, que só destrava quando se permite vulnerabilidade — puxando o fio de Brené Brown já citado pelo Arthur. Foi a um show do Baco Exu do Blues, com a música "Autoestima", e leu, de improviso, um trecho do texto O Ator, do dramaturgo Plínio Marcos, sobre o que o teatro desperta mesmo em quem já se blindou da vida.


A Raquel Parrine contou de quase ter sido atropelada duas vezes esse semestre, e de como começar as páginas matinais a fez sentir uma "escavação" — camadas saindo, um mergulho mais difícil do que esperava. Está lendo Boulder, de Eva Baltasar, escritora catalã que conheceu na Flip.


O Rafael Gonçalves comprou uma bateria eletrônica, não gostou do som, e resolveu abrir o módulo pra instalar sons novos — resgatando um conhecimento de curso técnico de quase vinte anos atrás. Uma "brincadeira de 15 minutos" virou seis horas de madrugada, um cabo de vinte reais e a sensação, que ele buscava fazia tempo, de fazer algo com as próprias mãos.


E eu, Kristina Gonçalves, contei de um poema da Conceição Evaristo, uma faxina em casa que abriu espaço em todos os sentidos, e uma entrevista com a filósofa Viviane Mosé, no programa Provocações. Falei também da minha playlist de dormir, que já rendeu pedido de compartilhamento no grupo.



1 experimentos dos alunos da Rafaella / Fotos feitas pela Denise, dos seus primos na roça =)


Fios Condutores da Conversa Viva


Alguns fios apareceram na fala de várias pessoas ao mesmo tempo:


A criatividade não pede credencial. Não é preciso ser artista de profissão pra ter direito a criar — ela mora em qualquer gesto feito sem plateia e sem plano, no cotidiano mais comum.


Desprender-se do resultado é um ato de coragem. Criar de verdade pede soltar o controle sobre como a coisa vai terminar, arriscar o rascunho, aceitar que a coisa pode se desmanchar no caminho.


A dor também é matéria-prima. Nem tudo que atravessa a gente é leve — perdas, lutos, momentos difíceis também alimentam a criação, e este espaço é também um lugar de dizer o que é verdadeiro, não só o que é bonito.


Ninguém cria sozinho. As referências foram se encadeando a noite toda — um livro puxando um vídeo, um filme puxando um poema, uma fala puxando outra. A ideia nasce no encontro, não antes dele.


Amor não se prova se machucando. Ficou a ideia de inverter uma frase feita: em vez de "eu morreria por você", talvez o mais bonito seja "eu viveria por você".


Coletas da noite


As referências que passaram pela roda. Se você quiser puxar algum desses fios durante a semana, fica aqui o começo.



Filme, série e documentário e outros...


Entrevista: Provocações — Antônio Abujamra e Viviane Mosé - YouTube



Série: OffCampus — Prime


Série: "Alias Grace" — minissérie, baseada em Margaret Atwood - Netflix



Poema: Da Calma e do Silêncio de Conceição Evaristo — YouTube



Astrologia — YouTube



TEDx - A morte é um dia que vale a pena viver  - YouTube



Filme - O Convite  - Cinema



Música


Autoestima - Baco Exu do Blues - YouTube



Música: Algo Contigo — Rita Payés - YouTube


Música: Na Roça — A Outra Banda da Lua - YouTube




Canal do YouTube



Exposição

  • "Sou o Outro do Outro" — exposição de Es Devlin, Casa Bradesco, São Paulo


Livros


  • Vamos Comprar um Poeta, de Afonso Cruz

  • O Caminho do Artista, de Julia Cameron — o livro que guia o Aglomerado

  • A Coragem de Ser Imperfeito, de Brené Brown

  • O Convite, poema de Oriah Mountain Dreamer

  • A Origem da Obra de Arte, de Martin Heidegger

  • Do Que Eu Falo Quando Falo de Corrida, de Haruki Murakami

  • O Adversário, de Emmanuel Carrère

  • Alias Grace, de Margaret Atwood — livro por trás da minissérie

  • Boulder, de Eva Baltasar

  • A Morte é um Dia que Vale a Pena Viver, de Ana Cláudia Quintana Arantes


Aleatoriedades

  • Vídeo de macarrão feito com massa de cerveja e molho carbonara, de um criador que trabalha com ingredientes inusitados e bom humor — instagram.com/p/DbMQaDWoHKO


Ideias e referências


  • As páginas matinais como escavação — trazido pela Raquel

  • O caderno "só rascunho", escrito a lápis — prática da Denise

  • "Eu viveria por você" em vez de "eu morreria por você" — ideia da Kris, puxada da fala da Camila


O Ator


Por mais que as cruentas e inglórias batalhas do cotidiano tornem um homem duro ou cínico o bastante para fazê-lo indiferente às desgraças e alegrias coletivas, sempre haverá no seu coração, por minúsculo que seja, um recanto suave no qual ele guarda ecos dos sons de algum momento de amor que viveu em sua vida.


Bendito seja quem souber dirigir-se a esse homem que se deixou endurecer, de forma a atingi-lo no pequeno núcleo macio de sua sensibilidade, e por aí despertá-lo, tirá-lo da apatia, essa grotesca forma de autodestruição a que, por desencanto ou medo, se sujeita, e por aí inquietá-lo e comovê-lo para as lutas comuns da libertação.


— Plínio Marcos



O Convite


Não me interessa o que você faz para ganhar a vida. Eu quero saber pelo que você sofre e se você ousa sonhar em ir de encontro ao desejo do seu coração.


Não me interessa a sua idade. Eu quero saber se você vai arriscar parecer um tolo por amor, pelo seu sonho, pela aventura de estar vivo.


Não me interessa que planetas estejam no quadrante da sua lua… Eu quero saber se você tocou no centro de sua própria tristeza, se você se abriu com as traições da vida, ou se você se encolheu e se fechou por medo de mais dor.


Eu quero saber se você consegue suportar a dor, minha ou a sua própria, sem escondê-la, ou diminuí-la, ou consertá-la. Eu quero saber se você pode sentir alegria, a minha ou a sua própria, se você pode dançar loucamente e permitir que o êxtase percorra seu corpo até a ponta dos seus dedos sem alertar-nos para que sejamos realistas e sem lembrar-nos das limitações do ser humano.


Não me interessa se a história que você está me contando é verdadeira. Eu quero saber se você consegue desapontar alguém para ser verdadeiro consigo mesmo; se você consegue suportar a acusação de traição e não trair sua própria alma.


Eu quero saber se você consegue ver beleza mesmo quando não for belo todos os dias. Eu quero saber se você consegue conviver com o fracasso, seu e meu, e ainda assim ficar à beira do lago e gritar para a lua cheia prateada "Sim".


Não me interessa saber onde você mora ou quanto dinheiro você tem. Eu quero saber se você consegue levantar depois da noite de dor e desespero, exausto e machucado até os ossos, e fazer o que é necessário ser feito para alimentar as crianças.


Não me interessa quem você é ou como você chegou até aqui. Eu quero saber se você vai ficar no centro do fogo comigo sem se encolher.


Não me interessa onde, ou o quê, ou com quem você estudou. Eu quero saber o que sustenta você a partir do seu interior, quando todo o resto desmorona. Eu quero saber se você consegue ficar sozinho consigo mesmo, e se você realmente gosta da sua companhia nos momentos vazios.


— Oriah Mountain Dreamer


O próximo encontro


O Encontro com as Musas acontece de novo na próxima quarta (05.08), 19h30.


Não precisa chegar com uma grande descoberta. Uma cena, uma frase, um som que ficou preso já é uma coleta. Anota durante a semana, mesmo que seja só uma palavra e vem!


Aberto e gratuito. Clique no botão abaixo e entre no grupo de WhatsApp do Clube de Conversa Criativa, é por lá que envio os informes e o link para o nosso encontro semanal com a criatividade.




Encontro com as Musas


Kristina Gonçalves - criadora do Clube de Conversa Criativa

 
 
 

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