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Encontro com as Musas #2

24 de jul.
7 min de leitura

Atualizado: 27 de jul.

22 de julho de 2026


O que te fez bem nessa semana?


Essa foi a pergunta que abriu o segundo encontro. Não é sobre performar — é sobre criar memória. Porque a gente esquece do que faz bem para a gente, e tem que treinar o músculo de perceber, guardar, contar.


Enquanto aguardava o povo chegar, contei como surgiu a ideia de criar o Encontro com as Musas. Foi em maio — um mês que dediquei a me cuidar fisicamente, me cuidar criativamente e organizar o Clube de Conversa Criativa, que eu já tinha experimentado em 2024. Nesse maio eu me nutri de muita arte: filme, documentário, exposição, peça, artista novo, pesquisa. E senti uma diferença enorme na minha motivação, no meu ânimo, na vontade de experimentar — só de estar me alimentando artisticamente daquele jeito. Só que, no fim do mês, eu tinha esquecido quase tudo do que tinha vivido. Tive que montar um mosaico de fotos — cartazes de filme, fotos de exposição — só para conseguir lembrar. Foi aí que a ideia pegou forma: se eu preciso documentar para não esquecer o que me nutre, por que não fazer isso em grupo? Daí nasceu o convite semanal — trazer o que te atravessou, sem precisar de muito tempo, só de presença.


No dia 22 de julho, a roda teve Camila Silvestrin, Ingrid Oliveira, Larissa Pinheiro, Eduardo Padilha, Arthur Beloti e Rafael Gonçalves — mais eu, Kristina Gonçalves. A Julia Tourinho (Coragem Pra Que) também esteve presente, como ouvinte. A Paula Ferreira, de Niterói, não pôde participar ao vivo, mas mandou suas reflexões da semana para o grupo do Clube de Conversa Criativa.


A Primeira Roda


A Paula Ferreira, de Niterói, não esteve na chamada, mas mandou seu relato para o grupo. Precisou fazer uma lista da semana porque simplesmente não lembrava do que tinha vivido e segue com a ideia de um painel mensal para guardar isso. Participou ao vivo de um grupo de estudos sobre A Jornada da Heroína e fez um exercício de Soulcollage, tomou chá da tarde com uma amiga, passeou sozinha pelo Centro de Niterói fotografando portas e janelas para aquarelar depois, e ganhou um dia de SPA de presente da filha. Nos domingos, o ritual de café na padaria e sambinha na praia com o namorado, inclusive se permitindo dançar, "dura que nem pau", como exercício de largar o controle. Fechou a semana repensando amizades depois de Doces Magnólias, e lendo um único livro do começo ao fim, em vez de vários ao mesmo tempo.


A Camila Silvestrin contou de Jaraguá do Sul: as férias do filho a levaram de volta a um jeito de brincar que ela quase tinha esquecido, aquele lugar da imaginação onde as coisas se montam sem sentido e viram um sentidão só. E contou também de um ritual próprio que criou sem perceber: parar toda manhã numa cafeteria perto do escritório para ler Filho de Mil Homens, de Valter Hugo Mãe — e assinou o café da casa só para não ter desculpa de faltar (ótima estratégia criativa).


A Ingrid Oliveira, de Vitória (ES), trouxe o filho fazendo curtas no Sesc Glória e o desejo dos dois de criar um canal no YouTube juntos. Está num momento de reorganizar, de repensar sua relação com o divino, e vem se nutrindo de conteúdos da Nova Acrópole, canal de filosofia onde encontrou a filósofa Lúcia Helena Galvão, que a apresentou ao quadrinista Caetano Cury — e isso puxou da estante um livro que ela já tinha em casa, O Menino, a Toupeira, a Raposa e o Cavalo, de Charlie Mackesy, que parece infantil na capa mas carrega reflexões para qualquer idade. Fechou a semana com a notícia de um emprego novo começando no dia seguinte.


A Larissa Pinheiro, de Vila Velha (ES), começou o Caminho do Artista, de Julia Cameron, e trouxe uma pequena prática que virou descoberta: descer alguns pontos antes do ponto de ônibus de sempre, só para caminhar mais. Foi assim que topou com uma placa homenageando Raul Seixas, com a frase "a vida é muito curta para ter a mesma velha opinião sobre tudo" — e voltou para ouvir "Metamorfose Ambulante" com outra profundidade, indo atrás da origem dessa frase que o próprio Raul carregou desde os 12 anos até virar canção décadas depois. Num outro dia, sem poder ir à praia, ouviu som do mar de olhos fechados — e o efeito foi verdadeiro.


O Eduardo Padilha, de São Paulo, foi à "Sou o Outro do Outro", exposição inédita da artista britânica Es Devlin na Casa Bradesco, com curadoria de Marcello Dantas — seis instalações monumentais concebidas e produzidas no Brasil, a mesma Es Devlin do episódio "Es Devlin: Stage Design", da série documental Abstract: The Art of Design (Netflix). Entre os capítulos, como Mirror Maze e Infinite Library, o convite é para deixar de ser plateia e virar parte de uma "sociedade temporária" — a ideia de que só existimos através do reflexo e da visão do outro. Saiu pensando sobre o que é consumir arte: sempre um gesto de sair de casa para tentar absorver a visão de mundo de outra pessoa. Uma frase da artista ficou com ele: as ideias vêm dos outros, no encontro com os outros. E contou uma história rara, de outra exposição: como um dos artistas convidados da mostra "Emergence", ele escreveu um ensaio para o catálogo citando os biólogos-filósofos Maturana e Varela e a escritora Lynn Margulis, esposa de Carl Sagan (que escreveu com o filho, Dorion Sagan, sobre o que é vida, sexo e morte) — e os curadores mandaram uma cópia do catálogo para cada autor citado. Dorion Sagan leu, adorou, e respondeu!


O Arthur Beloti, de Vitória (ES), estava hospedado uns dias na casa da Kris em São Paulo, e trouxe duas coisas vivas nele. A primeira: pegou pela primeira vez a câmera profissional da Kris e, em cinco minutos, tirou uma foto que o fez pensar "talvez exista um fotógrafo aqui", não pelo resultado perfeito, mas pelo prazer de buscar. A segunda, mais funda: durante o ritual com o Pajé, percebeu que estava agindo sem questionar cada vontade. Parar de problematizar toda escolha pequena antes mesmo de senti-la.


O Rafael Gonçalves, de Nova Jersey, chegou direto do trabalho, ainda em correria, e acompanhou o encontro por áudio, participando da forma que podia.


E eu, Kristina Gonçalves, contei da minha semana: a exposição "Natureza Tecida – Somos Um Único Fio", da artista Sandra Anselmi, cogumelos gigantes de tricô na Cidade Matarazzo, no espaço Mata Lab. O humor caótico e bom de "Ela É Pior Que Eu" é o videocast do Porta dos Fundos estrelado por Clarice Falcão, Adriana Falcão, Bella Camero e Dida Camero. E uma cerimônia com um Pajé Pocha num sítio chamado Saramandala, fora de São Paulo, onde cantei dentro de uma geodésia com uma acústica que devolvia a própria voz ampliada, e ouvi dos indígenas que a ayahuasca, para eles, é um momento de pesquisa e aprofundamento.



1 e 2 fotos feitas pelo Arthur / 3, 4, 5 e 6 - Exposição "Sou o Outro do Outro" / 7 - Sítio Saramandala / 8 - Exposição "Natureza Tecida - Somos Um" / 9 - Foto da Larissa

Fios Condutores da Conversa Viva


Alguns fios apareceram na fala de várias pessoas ao mesmo tempo:


Documentar para não esquecer. A ideia que, de certa forma, deu origem ao próprio encontro: a gente esquece do que faz bem. Por isso, vale cultivar o hábito de anotar, fotografar, escrever ou contar o que vivemos. Não para provar produtividade, mas para elaborar a experiência e permitir que ela permaneça viva. Ah! E nem tudo precisa ser postado em redes sociais, é mais sobre cuidas das suas memórias)


Presença não pede tempo, pede atenção. Trinta minutos, dez minutos, uma hora por semana… o tamanho importa menos do que a qualidade da presença. O café da Camila, o som do mar da Larissa: cada pessoa vai encontrando seu próprio ritual para estar inteira no que faz.


Confiar na própria vontade. Falamos sobre o desafio de silenciar o diálogo interno que questiona tudo. Nem toda escolha precisa ser justificada. Às vezes, criar começa simplesmente por confiar naquilo que nos chama.


As ideias nascem do encontro. Ninguém cria sozinho. Criamos em diálogo com livros, pessoas, paisagens e conversas que continuam ecoando muito depois de terminarem, reaparecendo, mais tarde, em forma de ideia.


Ciência é arte, arte é ciência. Apesar de seguirem caminhos diferentes, ciência e arte compartilham uma mesma raiz: a criatividade humana. Ambas nascem da curiosidade, da imaginação e da observação do mundo, buscando compreendê-lo e traduzi-lo de maneiras distintas, mas complementares.


Coletas da noite


As referências que passaram pela roda. Se você quiser puxar algum desses fios durante a semana, fica aqui o começo.



Filme, série e documentário


Filme: Filho de Mil Homens — com Rodrigo Santoro, baseado no livro de Valter Hugo Mãe


Série: "Abstract - The Art Of Design" — episódio "Es Devlin: Stage Design", Netflix


Série: "Doces Magnólias" — documentário sobre o percussionista Paulinho da Costa - Netflix



Vídeocast: Ela é Pior que Eu, Porque Tenho Inveja da Maria Monte?— YouTube



Porta dos Fundos: A vida como ela é (GEN Z) — YouTube




Música


Metamoforse Ambulante - Raul Seixas - YouTube



Música: O Sonho & A Criança — Lachimi Jaya - YouTube




Livros


  • O Caminho do Artista, de Julia Cameron

  • Filho de Mil Homens, de Valter Hugo Mãe

  • O Menino, a Toupeira, a Raposa e o Cavalo, de Charlie Mackesy

  • Os Quatro Compromissos, de Miguel Ruiz

  • Livros de Dorion Sagan e Lynn Margulis — O que é Vida, O que é Sexo, O que é Morte

  • Descolonizando Afetos, de Geni Núñez

  • Mayada, Filha do Iraque, de Jean P. Sasson


Ideias e referências


  • Autopoiese — o conceito de Maturana e Varela: a vida como capacidade de se criar a si mesma

  • "As ideias vêm dos outros" — frase ouvida pelo Eduardo na exposição

  • "Não há dúvidas, tá criando dúvida" — frase do Arthur, vinda do ritual

  • O quadrinista Caetano Cury, indicado pela filósofa Lúcia Helena Galvão (canal Nova Acrópole)

  • A prática de descer um ponto antes, caminhar mais — trazida pela Larissa

  • Soulcollage — exercício de colagem intuitiva (trazido pela Paula)

  • Fazer um painel mensal com as vivências criativas e culturais — ideia da Paula, parecida com o mosaico de fotos que a Kris também fez


O próximo encontro


O Encontro com as Musas acontece de novo na próxima quarta (29.07), 19h30.

A ideia é variar os dias e horários — talvez um café da manhã, talvez uma tarde — para abraçar mais possibilidades, mais gente e mais ideias!


Não precisa chegar com uma grande descoberta. Uma cena, uma frase, um som que ficou preso já é uma coleta. Anota durante a semana, mesmo que seja só uma palavra e vem!


Aberto e gratuito. Clique no botão abaixo e entre no grupo de WhatsApp do Clube de Conversa Criativa, é por lá que envio os informes e o link para o nosso encontro semanal com a criatividade.




Encontro com as Musas


Kristina Gonçalves - criadora do Clube de Conversa Criativa

 
 
 

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