Encontro com as Musas #1
13 de julho de 2026
Que Musa te visitou essa semana?
Todo mundo tem uma musa da semana. Aquele filme que ficou. A música que não sai da cabeça. O artista que apareceu do nada. A conversa que te virou do avesso.
O Encontro com as Musas é um espaço aberto e gratuito da comunidade do Clube de Conversa Criativa, que se junta uma vez por semana. Cada pessoa traz o que encheu o poço criativo nos últimos dias — o que viu, ouviu, leu, sentiu. Sem tema imposto. Sem precisar ter produzido nada. Só o que te atravessou.
O nome vem da mitologia grega. As Musas eram as nove filhas de Zeus com Mnemósine — a deusa da Memória. A criatividade não era algo que o artista possuía. Era algo que a Musa concedia. Você não era talentoso. Você era visitado.
E carrega o gesto do "encontro com o artista" de Julia Cameron, do O Caminho do Artista: você sai pelo mundo, colhe o que te alimenta, e volta para contar. O nome diz o que o encontro faz.
No dia 13 de julho a gente sentou pela primeira vez. Sete pessoas: eu (Kris), Paula, Marquito, Marília, Laís, Thamires e Rafael.
A Primeira Roda
A intencionalidade desse grupo é que seja fluido e leve. Uma sala de casa onde a gente conversa. Cada pessoa diz o que a atravessou. E eu fui anotando, costurando os fios.
A Paula Ferreira abriu falando de sair. Mora em Niterói, tirou uns dias de férias e resolveu atravessar de barca até o Rio só para fazer algo cultural — coisa que fazia tempo que não se permitia. Foi ao cinema ver O Convite, saiu de lá com vontade de voltar a escrever. Está retomando um romance parado na metade e reorganizando o ambiente de trabalho: duas estações, uma analógica e uma digital, para poder arrastar a cadeira de uma para a outra conforme a criação pede. Ideia que ela roubou do Austin Kleon.
O Marquito trouxe um lugar que quase ninguém associa a criatividade: a inteligência artificial. Ele programa desde 2001, e conta que a IA devolveu a ele o prazer de criar coisas do zero — de cortar aquela parte "pegajosa" da criação, a infraestrutura que trava a gente antes de começar. Retomou um livro que estava dez anos parado e escreveu vários capítulos. Para ele, criar com a máquina é criar com outra consciência — que não resolve por você, mas te faz uma pergunta que abre uma porta que você nem sabia que estava ali. Programação também é arte.
A Marília Pelluzzo chegou apaixonada por um percussionista que ela nem conhecia até essa semana: o Paulinho da Costa, no documentário The Groove. Saiu de lá ouvindo música de outro jeito — caçando o sino de vaca, o pandeiro, o barulhinho escondido que faz a faixa inteira balançar. O groove, o swing. E trouxe uma prática que vale para todo mundo: ao terminar um livro, escrever não o resumo do livro, mas o que ficou dele em você.
A Laís — nos conhecemos na formação em design de conexões do Instituto Amuta. Trouxe Sidarta, de Hermann Hesse, e a diferença entre saber uma coisa com a cabeça e sentir essa coisa no corpo. Ela, que se reconhece muito no racional, foi tocada justo por essa falta do sentir. E nomeou bonito o que este encontro é: não uma coisa que você só ouve, mas uma conversa em que dá para estar presente de verdade. Ainda deu a dica de que às vezes a gente consome tanto — um documentário atrás do outro — que não sobra tempo de integrar o que viu.
A Thamires Vettorazzi lembrou que criatividade também mora no encontro. Contou de uma roda só de mulheres amigas na semana anterior — dança na sala, poesia, karaokê — que funcionou como um encontro com a musa de verdade. Um lugar onde ela se reconhece de novo como artista, com aquele olhar curioso de criança que pergunta "o que é isso?".
O Rafael Gonçalves entrou correndo, entre um compromisso e outro, e trouxe a conexão. Mora fora do Brasil, passando por um período de seca no sentido humano — amigos que se mudaram, rede de apoio que se desfez. Disse que a conversa foi um respiro. E puxou uma reflexão que ficou: a vida é plural demais para o trabalho ocupar o centro dela. Já reparou como é difícil se apresentar sem dizer o que a gente faz?
E eu, Kris, trouxe a minha semana também. Visitei meus pais na minha cidade natal, voltei a ver televisão depois de anos — e me surpreendi com duas coisas na Globo: a entrevista da Fernanda Torres com o Bial e uma série sobre o pagode no Brasil, com Molejo, Katinguelê, Art Popular, que me devolveu inteira à infância. Revisitei o trabalho de um cantor e compositor uruguaio, Jorge Drexler, depois de ver um show do novo álbum, Taracá — ele tem um álbum mais lindo que o outro. E tive muito contato com a natureza — porque uma musa também é uma luz batendo na textura de uma folha.
Fios Condutores da Conversa Viva
Alguns fios apareceram na fala de várias pessoas ao mesmo tempo:
Preparar o ambiente é parte da criação. A Paula com as duas estações, a Marília querendo uma mesa sempre livre para anotar a ideia antes que ela fuja. A gente pensa muito no resultado e pouco na preparação — em como deixar a situação favorável para sentar e rabiscar.
Registrar para integrar. Fotografar, anotar, fazer o resuminho do que ficou. Não para provar produtividade — mas para que a experiência seja digerida, e não só consumida e esquecida.
Presença contra o piloto automático. A vida passa batida quando a gente não presta atenção. Ligar o radar criativo é perceber melhor onde a gente está, com quem, o que está entrando pelos olhos e pelos ouvidos.
Tecnologia a favor da presença. A IA como parceira que agiliza e provoca — desde que o contexto e a essência sejam nossos. Sem isso, vira alucinação.
O encontro como remédio para o isolamento. Quem trabalha sozinho em casa sente. Ter com quem trocar, gente que também é da área do sentir, muda a semana.
No fim, a conversa escorregou gostosa para os livros — quem larga na metade, quem tem vergonha de dizer que não gostou de um clássico, quem lê três ao mesmo tempo. Ficou combinado que a próxima semana já começa com uma pergunta na manga: o que eu posso levar de bacana para contar no próximo encontro?
Coletas da noite
As referências que passaram pela roda. Se você quiser puxar algum desses fios durante a semana, fica aqui o começo.
Filme, série e documentário
Filme: "O Convite" — em cartaz
Documentário: "The Groove Under The Groove" — documentário sobre o percussionista Paulinho da Costa - Netflix
Série: Anos 90: A Explosão do Pagode — Globo
Entrevista: Conversa com Bial — Globo
Show
Jorge Drexler — cantor e compositor uruguaio - YouTube
Livros
O Caminho do Artista, de Julia Cameron — o livro que guia o Aglomerado
A Cabeça do Santo e Oração para Desaparecer, de Socorro Acioli
Filho de Mil Homens, de Valter Hugo Mãe
Sidarta, de Hermann Hesse
O Lobo da Estepe, de Hermann Hesse
Cem Anos de Solidão, de Gabriel García Márquez
Orgulho e Preconceito, de Jane Austen
Ideias e referências
O "encontro com o artista" de Julia Cameron — sair, colher, voltar
As duas estações de trabalho (analógica e digital) — do Austin Kleon
As nove Musas e Mnemósine, a deusa da Memória
A IA como parceira criativa (o Marquito vai voltar num encontro só sobre isso)
Registrar o que ficou de cada livro, e não o que o livro é
O próximo encontro
O Encontro com as Musas acontece de novo na próxima quarta (22.07), 19h30.
A ideia é variar os dias e horários — talvez um café da manhã, talvez uma tarde — para abraçar mais possibilidades, mais gente e mais ideias!
Não precisa chegar com uma grande descoberta. Uma cena, uma frase, um som que ficou preso já é uma coleta. Anota durante a semana, mesmo que seja só uma palavra e vem!
Aberto e gratuito. Clique no botão abaixo e entre no grupo de WhatsApp do Clube de Conversa Criativa, é por lá que envio os informes e o link para o nosso encontro semanal com a criatividade.
Encontro com as Musas
Kristina Gonçalves - criadora do Clube de Conversa Criativa


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